| TIM, qual o preço de ser autenticamente diferente? |
|
|
|
| Opinião - Palavras dos Leitores | ||||
| Written by Milton Machel | ||||
| Friday, 05 February 2010 08:24 | ||||
|
A TIM (Televisão Independente de Moçambique) acaba de brindar os telespectadores com mais um produto na senda do seu lema: autenticamente diferente. Trata-se da novela “nineteens”, o que traduzido para o português se poderia ler “nove adolescentes”.
A TIM lança este produto precisamente uma semana depois de mais um estudo de audiência dos mass media, realizado por uma firma multinacional especializada, indicar que, no global, nas cidades de Maputo, Matola, Beira e Nampula (por que será que Quelimane ainda não entra neste ranking?) este canal é o quarto mais visto, atrás da jubilosa líder STV, da “brasileira” Record Moçambique (ex-Miramar), da nossa televisão pública TVM e superando apenas as sucursais da RTP (RTP-África) e da religiosa TV Maná. Esta jovem televisão, de um canal de entretenimento puro quando lançou-se no mercado então designada 9TV, tem-nos brindado desde que se lhe reconhece uma visão estratégica orientada nesse slogan ou princípio (autenticamente diferente) com uma postura ousada, que nos leva a questionarmo-nos sobre a sua sustentabilidade. Ou seja: qual o preço que a TIM vai pagar por ser autenticamente diferente? Senão vejamos: Na linha do autenticamente diferente, como se auto-proclama, a TIM foi a primeira televisão nacional a valorizar a produção cinematográfica nacional, não só através da criação de espaço para teledifusão da mesma (Cinema Moçambique) mas e sobretudo ao pagar para a difusão desse conteúdo – o mesmo que dizer que a TIM respeita e incentiva a salvaguarda dos direitos de autor deste segmento das Indústrias Culturais. Fazendo-nos crer que o seu Cinema Moçambique não é mais um enlatado que se diferencia apenas pelo rótulo made in Mozambique, a TIM mantém na sua grelha de programação o espaço DOC, de divulgação de documentários (na linha do científico e do educativo), bem como nos proporciona (a nós os hollywoodianos) um magazine semanal (Cena1) sobre as produções e estrelas de Hollywood – sempre um paradigma, não para copiar, mas para comparar e avaliar o nível de produção e marketização da Indústria Nacional de Cinema como arte conjugada com business. Porque este artigo questiona a sustentabilidade do autenticamente diferente da TIM, não ficará nada a dever a este exercício se perguntarmos: por que parou a TIM de dar o Cinema Moçambique? Esperemos que não seja uma pergunta com resposta-valor de UM MILHÃO DE METICAIS… Não fica mal, ainda, dizer que esperamos muito da parceria celebrada pela TIM e o Dockanema… que frutos dará esta assinatura de papel protocolar? Com o lançamento da novela “nineteens”, o Director-Geral da TIM (o cineasta João Ribeiro) e o PCA da TIM SA (Bruno Morgado) anunciaram que pretendem iniciar uma linha de produção de novelas, séries e seriados que criem um nicho (ou um mercado?) de produção permanente de Ficção Nacional. (Tributários da utopia como somos) Imaginamos nos bastidores da TIM um laboratório de ficção com criadores em secções de brainstorming e executores, sejam eles workaholics ou worklovers, a jobarem como operários numa factory (seja ela fordiana ou taylorista) que se traduza em quantidade e qualidade de novelas, séries e seriados – esses excelsos produtos de exportação brasileiros e americanos que globalizaram a cultura do SER BRASILEIRO e do AMERICAN WAY OF LIFE. Será, certamente, um aceno aos escritores, guionistas, tele-dramaturgos, argumentistas, produtores, realizadores, enfim cineastas e cinéfilos moçambicanos. Um desafio, diriam os políticos, um challenge, diriam os homens de negócio. Se custódios da ditosa auto-estima e do Orgulhosamente Moçambicano, não ficará mal perguntarmos ao novo Ministro da Cultura e ao Ministro da Indústria e Comércio: como olham, excelências, para este autenticamente diferente da TIM? Políticas e estratégias de incentivo à produção cultural nacional e a sua tradução em negócio não irão certamente terminar na TIM, mas seguramente sairão da Caixa de Pandora residual nos outros canais de televisão nacional (a STV e a TVM têm, de longe, quadros e capacidade para produzir ficção nacional). Porque a TIM não restringe a sua, digamos, idiossincracia do autenticamente diferente pela Ficção e pela Cultura, vivemos ávida e intensamente o seu compromisso inédito de realizar, durante o período eleitoral, debates televisivos de ideias, ideais e programáticos colocando na mesma plataforma os partidos, candidatos, analistas e eleitores durante as Eleições Gerais e Provinciais de 2009. O carácter inédito destes Debates Eleitorais da TIM, ao nível da televisão nacional, ganhou mais consistência porque a TIM quebrou a hegemonia de Maputo como centro de pensamento, influência e decisão nacional, ao realizar um roadshow por Maputo, Beira, Nampula e Quelimane, numa série de debates que marcaram as classes política, académico-intelectual, estudantil, juvenil. Dito de forma simples, a TIM colocou num mesmo fórum de discussão a elite e o povo. Com as eleições foram-se os debates eleitorais, pelo que vem de novo a questão sobre a sustentabilidade do autenticamente diferente da TIM: e depois dos Debates Eleitorais, qual o espaço na TIM de debate da agenda nacional, por todos os actores de desenvolvimento? Parece-nos, no final deste exercício, que o mesmo não passou de uma hipérbole da clássica interrogação retórica. É que, a nosso ver, o preço que a TIM tem a pagar por ser autenticamente diferente é precisamente esse: a (in)sustentabilidade das suas acções e criações. Como pagar, pois, essa sustentabilidade? Qual a relação entre preço e valor, na idiossincracia da TIM?
|
||||
More articles :







