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Consagrada a realização do CAN em Angola, não tenho dificuldade alguma em reconhecer que a sua realização constituiu uma mola propulsora para a criação de novas infra-estruturas nos domínios desportivo e aeroportuários que vão dotar o país de equipamentos à altura de alguns dos grandes desafios que se lhe continuarão a colocar no futuro.
Mas, depois da ruinosa (con) gestão a que estão votados os pavilhões que serviram de suporte ao Afro-basquete, não vejo razões para festejarmos o triunfo da fraude. E não vejo porquê? Porque há mais de trinta anos que conheço a voracidade da nossa cultura de desperdício. Porque há mais de trinta anos que conheço o vírus que subsidia o nosso servilismo mental e a nossa indigência intelectual. Porque há mais de trinta anos que nos habituamos a não prestar contas a ninguém. Porque há mais de trinta anos que vivemos sufocados pela impunidade e arrogância. Porque há mais de trinta anos que julgamos que somos o centro do mundo quando nem sequer fazemos parte da sua periferia. Por isso, não nos iludamos e tenhamos os pés bem assentes no chão. O CAN é o CAN mas o CAN não é Angola! O CAN tem a importância que tem mas não pode, aos olhos da opinião, pública expôr ao ridículo a imagem do Presidente da República. O CAN vale o que vale mas não pode transformar o Presidente da República num fiscal de ensaios ou de sessões de treino dos Palancas Negras, como se de repente nada mais fosse superiormente importante para Angola do que o CAN. Não percamos, desde logo de vista, que depois do CAN continuará a haver vida em Angola. Depois do CAN passar-nos-á o efeito do doping que a sua realização provocou em muita gente. No rescaldo da euforia que em vésperas do início da prova já havia embebedado a nação inteira, há que ter a cabeça fria e reflectir sobre alguns deslizes de palmatória que foram cometidas antes e depois da prova. Desde logo, reconheçamos que a escolha de Cabinda era a menos recomendável. E era-o porquê? Era-o porque não se deveria em momento algum ter subestimado o clima de tensão ainda prevalecente no Enclave. Ou seja, não é necessário ser um especialista alistado nas fileiras dos serviços de informação para prever e concluir que, a qualquer momento, um grupo de terroristas da FLEC ousaria aproveitar a visibilidade do CAN para protagonizar uma operação de envergadura, visando a projecção da imagem da organização a que pertence. É evidente que a tentativa de reeditar o ‘Setembro Negro’ de Munique nos Jogos Olímpicos de 1972, protagonizado pelos palestinianos contra a delegação de Israel, acabou por ter um efeito ‘boomerang’ com a generalizada condenação, por parte da comunidade internacional, do bárbaro acto. Não menos condenável foi o estranho silêncio da maioria dos partidos da oposição, como se o CAN, em lugar de ser assumido como um desafio nacional, devesse ser tomado como uma causa do MPLA. É inaceitável e pouco avisada essa atitude da nossa oposição. Assim como são pouco avisadas as razões políticas que levaram o Governo a colocar uma das séries do CAN em Cabinda. Desde logo porque não deixam igualmente de ser justificáveis os argumentos políticos de todos aqueles que defendiam a sua realização na província do Huambo. Porquê? Porque depois de ter sido fustigada pela intensidade de uma guerra sem paralelo, o CAN representaria, sem dúvida, uma oportunidade de ouro para alavancar novas sinergias criar novas infra-estruturas indispensáveis à sua reconstrução e insuflar de ânimo regenerador a laboriosa população do Huambo. Porquê? Porque o Huambo, livre de quaisquer ameaças de guerra, conferia garantias de segurança que Cabinda demonstrou não estar ainda à altura de reunir em pleno. Por tudo isso, não se deveria ter litoralizado em absoluto o CAN mas colocá-lo também no interior de Angola. E o Huambo bem merecia ter sido escolhido como sede de uma das séries do CAN. Mas, de Cabinda não é tudo. O ‘caso do Togo’ acabou, mais uma vez, por destapar, de forma nua e crua, a incapacidade crónica do poder angolano gerir a sua relação com a opinião pública. Este Governo demonstrou, mais uma vez, que não sabe lidar com a informação. É uma velha pecha incorporada na mente de gente com pensamento fossilizado, gente que continua a confundir informação com propaganda, gente que se habituou a tentar tapar o sol com a peneira, gente que insiste em ignorar o poder dos modernos meios tecnológicos que nos dias de hoje, ao serviço da comunicação social, a tornam independente do silêncio de um Governo que se permite a levar mais de cinco horas (!) a reagir a um atentado, como aconteceu agora em Cabinda. Sinceramente, tenho dificuldade em perceber porque é que o MPLA se desconcerta tanto na gestão da informação. Tenho imensas dificuldades… Porém, não tenho dificuldades em reconhecer que, quaisquer que venham a ser os resultados dos Palancas Negras neste CAN, por muito que isso doa a muita gente, assistir-se-á sempre ao triunfo da fraude. Mesmo que, por algum milagre, a Taça viesse a ficar em Angola, lá estaria a fraude a triunfar: a) Como pode um país aspirar a ter ambições de vir a estar presente numa final de uma Taça de África das Nações organizada por si, se as fileiras da sua Selecção são povoadas de jogadores africanos de segundo e terceiro planos, que nalguns casos não jogam há meses? c) Como pode ter essas aspirações, se não tem sequer futebol jovem? d) Como pode patrocinar um contrato milionário a um treinador que sabia à partida que Angola não tem jogadores? e) E como pode esse mesmo treinador aceitar o convite para treinar uma equipa relativamente à qual afirma publicamente que não tem jogadores? Manuel José não tem culpa de lhe terem oferecido, seguramente, de bandeja o melhor contrato da sua vida ao arrecadar em oito meses 2 milhões de dólares resultante de um salário mensal de 25O mil dólares mas, ao aceitar, deve saber que nós sabemos que não o fez por acreditar nas anémicas performances dos jogadores angolanos. Fê-lo por acreditar no poder da embriagues interna dos nossos petrodólares. A culpa, é claro, não é sua. A culpa é de quem se aproveitou do CAN para, mais uma vez, promover a fraude em benefício próprio. Viva a fraude!
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