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A circuncisão

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No dia 31 de Janeiro de 1959, fiz sete anos de idade. Ao primeiro canto do galo, a minha mãe, ela própria, levantou-se, foi fazer fogo, aqueceu água e meia hora depois veio me levantar da cama.
“Levanta-te, menino. Estás a fazer anos”.

Gostaria de pensar que isso foi num domingo. Mas se calhar nem foi. O que eu sei, é que ela pós-me sapatilhas novas, brancas, peúgas brancas, calções de caquí, um chapéu, e levou-me pela mão até à igreja da sagrada família da Maxixe.
Voltamos para casa e o meu pai como sempre estava na adega a beber aguardente de cana com os seus amigos, mecânicos, carpinteiros, pedreiros, parteiros, ganho¬ganhos e algumas prostitutas.
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Petróleo: Boas e Más Notícias

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Foi Paul Getty esse grande magnata do petróleo que disse que “ o formulário para se ter sucesso na vida é simples: acordar  cedo, trabalhar muito e descobrir petróleo”.
Penso que os moçambicanos há muito que cumprem os dois primeiros requisitos, não pelo valor individual de cada um desses requisitos mas porque o segundo está dependente do primeiro. Quanto ao petróleo eu tenho boas e más notícias a dar-vos.

Na verdade e como vos anunciou a ministra dos Recursos Minerais, a ANADARKO descobriu petróleo ao largo da costa norte de Moçambique, mas tenho que vos estragar a festa. Tenho a dizer-vos que todos os envolvidos afirmam que essa descoberta não tem valor comercial.
O furo, disse-me aqui um perito dos petróleos, tem “pouca permeabilidade e porosidade e não parece ser comer¬cialmente viável”. Tal como vocês,  não faço o mínimo de ideia do que isso de porosidade e permeabilidade significa mas para bom entendedor meia frase basta, nomeadamente “não parece ser comer¬cialmente viável”.
Aliás o próprio porta-voz da ANADARKO disse que “pelo menos nesta altura não parece que seja uma descoberta com valor comercial”.
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A Música Moçambicana de influência Árabe

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A Música Moçambicana de influência Árabe em Moçambique não é tão divulgada como a de influência ocidental, neste caso, a ‘Marrabenta’. A ‘Marrabenta’ é hoje um ritmo que identifica os moçambicanos e é promovido como factor de identidade nacional. A apropriação da ‘Marrabenta’ pelo Estado remonta desde o período colonial. Sendo a Marrabenta um produto resultante do hibridismo cultural entre as civilizações europeia e nativa, este ritmo foi usado para justificar a presença portuguesa em Moçambique, com base no tropicalismo de Gilberto Freire1 .   Freire defendia que a colonização portuguesa era singular porque o português tinha se misturado com os locais, de tal modo que o mulato era a imagem de marca do português. Assim, a Marrabenta era a comprovação desta mestiçagem a nível cultural, tendo por essa sido promovida pelo Estado colonial, como um ritmo de âmbito nacional.

A música árabe, por seu turno, acabou por não ter o mesmo protagonismo não por falta de qualidade mas por uma série de factores a saber: A religião Árabe que não permite manifestações artísticas por parte dos seus seguidores para além dos ambientes familiares restritos.  O facto desta provir de uma cultura diferente da portuguesa o que levou ao seu ostracismo por parte do poder colonial caracterizado pela promoção de valores ocidentais e religião cristã. Assim, esta estará limitada às regiões com forte presença muçulmana ao longo do país assim como nos principais centros urbanos. Em Maputo, estas manifestações estarão concentradas no Bairro da Mafalala. Esta música tal como a Marrabenta resulta de uma mestiçagem cultural, mas entre a cultura árabe e a indígena. De entre estes podemos destacar o Unce e o Tufo.
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O Tempo

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Houve tempos em que eu acreditava em tudo. Porque não era preciso acreditar em nada.
Eram tempos em que eu acreditava nos contos das curandeiras da minha avó materna, sentado ao lume a ver a minha mãe a cozinhar, quase transido de frio a ouvir música que vinha do fundo do coração do meu pai, bêbado de aguardente que vinha do seu alambique.
Tive tempos em que acreditei.
Acreditei em ti.
Acreditei na vida.
Depois tive também o milagre de sofrer a circuncisão aos seis meses de idade.
Tive tempos também de sofrer a angústia da circuncisão com uma capulana amarrada na cintura.
Tive.
Tive isso tudo.
Tive tempo de acreditar na minha namorada, até que descobri que ela me andava a pregar cornos com o meu irmão mais velho.
E mesmo assim perdoei-os.
Tive tempo de jurar a bandeira na tropa portuguesa.
Tive tempo também de acreditar numa coisa chamada Pátria.
Tive tempos de voltar a acreditar num ideal chamado mulher, que me deu sete filhos: cinco são ladrões de carros, mas não os condeno porque dão-me de comer. Duas são prostitutas, mas não as condeno, porque dão de comer a minha mulher.
Acredito em mim.
Acredito nos meus tempos.
Acredito nos meus amigos.
Eu sei que em 1963 houve um grande ciclone no meio do qual eu ia morrendo.
E é por isso que eu acredito em ti.
E é por isso também que acredito em mim próprio.
Acredito nas flores.
Acredito no verde das folhas das acácias.
Acredito na minha mãe.
Acredito no meu pai.
Acredito nas pessoas com quem vivo.
Fundamentalmente, acredito em mim próprio.
Porque sem isso, a vida para mim não teria sentido.
Acredite. O tempo não se mede: o tempo flui.
 
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