| Observadores da UE lançam relatório final com a lógica de: Criticar irregularidades minimizando efeitos | | Versão para impressão | |
| Savana - Ultima Hora | ||||
| Quinta, 25 Fevereiro 2010 11:24 | ||||
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Oficialmente, o ciclo eleitoral fechou após a proclamação e validação dos resultados eleitorais pelo Conselho Constitucional (CC), mas o debate eleitoral continua e esta semana ficou actualizado com a publicação de mais uma avaliação de observação externa. Trata-se do relatório final da Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (MOE – UE) que, regra geral, minimiza as irregularidades denunciadas durante o processo eleitoral, ao referir polidamente que as mesmas “não se revelaram suficientemente significativas de forma a afectar substancialmente os resultados”. Este tipo de posicionamento, que vai-se tornando um lugar comum, já está a irritar alguns partidos políticos na oposição.
O relatório é publicado quando passa mais de um mês após a tomada de posse e investidura dos órgãos eleitos no processo ora em avaliação. Mesmo assim, o documento suscitou muito interesse na esfera política nacional. E não era para menos. O posicionamento da MOE–UE reveste-se de elevado peso político e económico para Moçambique, pois muitos países que integram a missão fazem parte do chamado G19, o grupo de países e instituições financeiras que apoiam o Orçamento do Estado em cerca de 50%. Entretanto, logo a abrir o relatório, a missão adverte que o “parecer não foi adoptado pela Comissão Europeia e não deve servir como declaração da Comissão”. Os 131 observadores provenientes de 24 Estados membros da UE, mais Noruega, Suíça e Canadá concluem que a votação de 28 de Outubro último foi “bastante organizada e pacífica”. Acresce-se a isso o respeito pelas liberdades de reunião, expressão e de circulação. Mas, observam, o processo ficou afectado pela falta de “maior transparência” por parte dos órgãos eleitorais, pela desigualdade em termos competitivos durante a campanha eleitoral e por limitações de direito de escolha do eleitorado ao nível local. “Tal como em 2004, foram observadas irregularidades durante a contagem e apuramento dos resultados”, escreve a missão, para logo a seguir declarar polidamente que as “irregularidades não se revelaram suficientemente significativas de forma a afectar substancialmente os resultados”. Críticas A maior parte das críticas que a missão levanta no seu relatório final já tinham sido arroladas por outros observadores, comunicação social e rebatidas pelo CC no acórdão de proclamação e validação dos resultados. São disso exemplo a legislação eleitoral dispersa em vários documentos, carecendo de clareza e abrindo espaço para diferentes interpretações; falta de rigor no recenseamento eleitoral; falta de confiança nos órgãos eleitorais; procedimentos complexos e pouco claros que resultam na rejeição de várias listas de candidaturas, desequilíbrios quantitativos na cobertura eleitoral por parte de alguns órgãos de comunicação social, enchimento de urnas e irregularidades no apuramento. Sobre a falta de rigor no recenseamento eleitoral, a MOE–UE escreve que o STAE (Secretariado Técnico de Administração Eleitoral) reconheceu que os nomes de eleitores falecidos e duplos registos não foram retirados das listas, “admitindo não ter capacidade para remover os cerca de 160.000 nomes duplicados que se encontram nas listas”. Por imperativos da lei, o STAE devia receber mensalmente do registo civil, dos tribunais e das instituições psiquiátricas uma lista de falecidos e doentes psiquiátricos, assim como pessoas condenadas (a penas de prisão maior) pelos tribunais. “Na prática, porém, o STAE admitiu não levar a cabo esta actualização regularmente”, diz a missão. A missão olha para a vitória “esmagadora” da Frelimo como reflexo da escolha de uma vasta maioria dos eleitores. Mas alista os factores que, a seus olhos, permitiram a vitória: “campanha cuidadosamente planeada e conduzida; um desequilíbrio considerável entre as despesas de campanha da Frelimo e as de outros dois principais partidos na oposição; a posição privilegiada da Frelimo dentro da administração local e a escolha limitada oferecida aos eleitores, em particular a nível dos distritos”.
Independência da CNE Teoricamente, não há dúvidas que a CNE é um órgão independente. Na verdade, a Lei 8/2007 de 26 de Fevereiro define a CNE como um órgão independente e permanente, responsável pela direcção e supervisão do processo eleitoral com poder de regulamentação. Mas na prática, a independência deste órgão sempre dividiu a opinião pública. A sua actuação se transformou num autêntico centro de gravitação de queixas e contestação dos partidos políticos na oposição. A inclusão de membros da chamada sociedade civil na estrutura da CNE poderia ter contribuído para operacionalizar a sua independência. Mas, observa a missão, a sua nomeação foi produto do acordo entre os partidos políticos e não tanto do envolvimento das organizações da sociedade civil. “Aos níveis provincial e distrital, os membros representantes da sociedade civil foram na realidade designados pelos partidos políticos”, denuncia o relatório, lamentando que a situação comprometeu o objectivo final de reforçar a independência da CNE. A MOE–UE critica ainda a limitação de mandato (cinco anos) dos membros da CNE. Cinco membros da CNE são indicados pelos partidos com representação parlamentar, daí que o seu mandato coincide tanto com o fim de cada processo eleitoral referente às eleições gerais, como com o início dos mandatos do PR e dos deputados da AR. Aos olhos da missão, a limitação de mandatos concorre para a falta de independência e eficiência deste órgão de administração eleitoral. “Em primeiro lugar, o sistema está estruturado de tal forma que a continuidade do trabalho dos membros da CNE está dependente da sua renovação pelo próximo governo”, explicam os observadores da UE, para quem a dependência limita a independência dos membros da CNE. Outrossim, é que com a mudança dos membros da CNE de um processo eleitoral para o outro, a memória institucional fica perdida, “resultando na continuidade e repetição de erros e irregularidades observadas em eleições anteriores”.
Media A missão observou também a actuação dos medias nacionais (num total de 13), de 5 a 25 de Outubro. O objectivo era de avaliar o nível de imparcialidade e cumprimento com as regulações locais relativas à cobertura eleitoral. Os resultados globais indicam que a falta de recursos e o tratamento desigual dos candidatos resultou em pouca ou nenhuma cobertura aos partidos mais pequenos por parte de alguns jornais privados. Quanto aos públicos, os observadores dizem que esses oferecem uma cobertura razoavelmente equilibrada da campanha dos partidos políticos e, em geral, “transmitiram as notícias num tom neutro”. Mas na análise à cobertura dos candidatos presidenciais, a missão diz que detectaram-se na RM, Notícias e Domingo claros desequilíbrios quantitativos favoráveis ao candidato Armando Guebuza. “Desequilíbrios semelhantes foram também detectados em quatro meios de comunicação social privados (Miramar TV, STV, Diário de Moçambique e Zambeze”. Mais ainda, a missão diz que os resultados globais reflectem que a “Frelimo foi o partido político que recebeu mais cobertura na rádio, televisão e nos jornais”. Mesma “sorte” teve o candidato vencedor, Armando Guebuza.
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