As questões culturais estão na ordem do dia e só o contrário seria de espantar num país que continua de andaimes montados no processo sinuoso da sua edificação. Esta semana, o Estado chamou a si a responsabilidade de promover um debate nacional. O SAVANA, à sua maneira, deu espaço ao autor para um contributo crítico e enunciador de várias avenidas no inesgotável filão que é o debate cultural em Moçambique.
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A necessidade de uma reflexão sobre política cultural em Moçambique impôs-se pela primeira vez à direcção do nosso estado quando dos grandes festivais que se realizaram logo depois da independência: o Festival Nacional de Dança Popular e o Festival Nacional de Canção e Música Tradicional.
Recordemo-nos: a responsabilidade governativa do sector pertencia ao Ministério da Educação e Cultura. No que respeita à área da educação a principal actividade era a introdução do ‘Novo Sistema de Ensino’ que materializava as ideias que sobre o assunto ofereciam os textos produzidos durante a Luta de Libertação Nacional e a experiência internacional a que tínhamos acesso. Para a área da cultura não havia projecto de relevância equivalente embora a dignificação da cultura moçambicana também se inscrevesse no ideário do movimento de libertação.
O facto era que o trabalho cultural não beneficiava do abundante suporte ideológico e metodológico que se oferecia ao sector da educação. O seu campo de acção e área de intervenção não eram tão claramente discerníveis quanto para a educação o eram a sala de aulas, os índices referentes à situação educacional do país e o reiterado projecto da criação do ‘homem novo’ - que se propunha como objectivo final a atingir.
Sobre o trabalho do sector da cultura recomendava-se vagamente que ele deveria atender à natureza de classe do Estado mas, dentro desse quadro amplo, pouco se dizia sobre o conceito em si, sobre as manifestações, formas e áreas a proteger e valorizar, e sobre os instrumentos a adoptar nessa acção. Por outro lado, sabia-se, a cultura diz respeito a toda a comunidade e está presente em todos os momentos da vida. Não seria a questão cultural - em algum sentido a forma como a comunidade se vê a si própria, interpreta a natureza e o ambiente circundante e se projecta no mundo e no tempo - demasiadamente ampla e complexa para ser atribuída à responsabilidade de um único sector da governação?