| Negócios levam o estadista sul-africano a Moçambique mas: Zuma contorna Mphanda Nkuwa |
| Escrito por Raul Senda |
| Sexta, 16 Dezembro 2011 07:13 |
|
Durante dois dias, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, visitou Moçambique a fim de aprofundar as relações políticas, económicas e sociais entre os dois países. Durante a visita, Jacob Zuma assinou um
total de sete acordos de cooperação com maior realce para o sector energético mas em nenhum momento foi focalizado o projecto da Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa. Recorde-se que a viabilização deste projecto depende da eléctrica sul-africana, a Eskom, que tem que dar garantias de que irá comprar parte substancial da energia a ser gerada pelo megaempreendimento. Ao que tudo indica, a construção e a exploração da Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, na província de Tete, poderá não se consumar num futuro breve. É que, o principal cliente, a África do Sul, ainda não deu luz verde, um sinal que possa garantir o financiamento do projecto. Esta semana, Jacob Zuma visitou Moçambique, assinou vários acordos energéticos mas, nenhum deles teve a ver com a viabilização do projecto. A barragem de Mphanda Nkuwa, projectada para ser erguida no rio Zambeze, na província de Tete, foi concessionada a um consórcio constituído por três empresas: Electricidade de Moçambique (EDM) - empresa pública moçambicana; a construtora brasileira, Camargo Correia e grupo Insitec. A EDM entra na sociedade como o accionista minoritário, com apenas 20% das acções, enquanto a Insitec e a construtora brasileira Camargo Correia, entram como dois sócios maioritários, detendo 40% da sociedade, cada um. O início da construção desta barragem vem sendo adiado, há muitos anos, por razões nunca claramente explicadas. Porém, sabe-se em circulos altamente fechados que os accionistas estão a busca de um cliente que possa garantir ao sistema financeiro a disponibilização de cerca de USD2,4 mil milhões Quando surgiu a ideia de projecção da Hidroeléctrica, um empreendimento com capacidade de para gerar 1500 megawatts de energia, a ESKOM, companhia sul-africana de electricidade, era apontada como o potencial comprador. No entanto, as conversações entre a companhia sul-africana e os accionistas do projecto encalharam porque a ESKOM não está, neste momento, em condições de satisfazer as exigências dos bancos financiadores. O Governo sul-africano, na qualidade de accionista da ESKOM, é que devia aparecer a dar garantias, mas, até esta altura, ainda não se pronunciou. Contactado pelo SAVANA, o ministro de Industria e Comércio, Armando Inroga, disse que o facto de Mphanda Nkuwa não ter sido abordado nesta visita de Zuma a Moçambique, não significa que o projecto não vai andar. De acordo com Inroga, Zuma veio a Moçambique para dinamizar acordos já assinados e que não eram devidamente implementados. Sublinhou que a África do Sul tem vários projectos que para a sua execução precisam de uma fonte efectiva de energia. Isso leva-o a acreditar que a energia de Mphanda Nkuwa será necessária para a viabilização dessas iniciativas. “Este é apenas um dos vários encontros que Moçambique e África do Sul mantêm. Se o projecto de Mphanda Nkuwa não foi fechado desta vez, acredito que da próxima será fechado já que a Hidroeléctrica interessa as duas partes”, disse Inroga. Por sua vez, o ministro de Energia, Salvador Namburete contou ao SAVANA que as obras da construção da barragem de Mphanda Nkuwa vão arrancar a qualquer momento. No entender de Namburete, o governo moçambicano, bem como os accionistas já fizeram tudo o que lhes competia. Neste momento falta apenas o fecho de um acordo de compra e venda de energia, instrumento que possa dar garantias aos bancos para financiar as obras. “A ESKOM era o principal cliente, mas neste momento a companhia está a passar por algumas dificuldades e não está em condições de assumir compromissos de género. Sendo um empreendimento de interesse geral, acredito que o governo sul-africano vai-se abrir”, disse acrescentando que há muito mais clientes interessados no produto. PUJANÇA SUL-AFRICANA FRUSTRA MOÇAMBICANOS Para além de estreitar relações de índole económica, política e social, a visita de Jacob Zuma a Moçambique culminou com a assinatura de sete acordos de cooperação. Dentre os mesmos, destaca-se a segurança marítima e telecomunicações. Os dois governos assinaram um acordo que cria a Comissão Bilateral de Cooperação, sobre consultas diplomáticas, um memorando de entendimento no domínio florestal e indústrias florestais e entre outros de fórum energético. Na conferência de imprensa que se seguiu à assinatura dos entendimentos pelos ministros dos respectivos pelouros, o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação moçambicano, Oldemiro Baloi, afirmou que os acordos traduzem o sentimento de que “é possível aos dois países fazerem mais pela cooperação bilateral”. Na mesma comunicação, Baloi manifestou a sua insatisfação com a evolução da balança comercial com a vizinha África do Sul, que actualmente pesa a favor da maior economia do continente. “Não estamos satisfeitos com a evolução da balança comercial. Se dissessémos o contrário estaríamos a comprometer-nos com a mediocridade e falta de ambição e, felizmente, nenhum dos nossos países enferma desses problemas”, disse Baloi. Acrescentou que o actual desequilíbrio na balança comercial dos dois países resulta de factores históricos e económicos. No entender de Baloi, Moçambique tem a missão de aumentar a oferta de bens à África do Sul, um desafio que passa pela melhoria da produtividade, investimentos em capital humano e infra-estruturas, algo que constitui uma das maiores prioridades do Governo moçambicano. “O desafio é reduzir esses desequilíbrios”, disse o governante, acrescentando: “deixemos a África do Sul andar a sua velocidade, pois nós é que devemos acelerar o nosso passo para também chegarmos ao nível de quem lidera a economia do mundo”. Respondendo a preocupação de Baloi, Maite Mashabane, ministra das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, defendeu o estabelecimento de parcerias entre empresários dos dois países, como forma de equilibrar a balança comercial, neste momento favorável à África do Sul. “Há uma assimetria no comércio bilateral, que favorece a África do Sul, e o caminho para se corrigir isso passa por desenvolver projectos empresariais conjuntos que possam permitir que Moçambique aumente as suas exportações”, disse. Sublinhou que, da parte do executivo moçambicano, é importante que se acelere o aproveitamento dos corredores de desenvolvimento, particularmente na componente de infra-estruturas de transporte, como forma de estimular as trocas comerciais. ZUMA PEDE CRIATIVIDADE Nesta quarta-feira, segundo e último dia da visita de Jacob Zuma a Moçambique, os chefes de Estado de Moçambique e da África do Sul reuniriam com os empresários dos dois países. O encontro presenciado por mais de uma centena de empresários, com a balança a pender para a presença sul-africana, Jacob Zuma, pediu criatividade no seio do empresariado moçambicano. Segundo Zuma, Moçambique é um país rico em termos de recursos, o mais importante é que os moçambicanos saibam o que na verdade querem. Falou da importância de se investir na área de infra-estruturas e telecomunicações. Noutra vertente, Jacob Zuma instou os empresários do seu país, a acelerarem o passo para viabilizar os projectos assumidos no âmbito dos acordos económicos e empresariais existentes entre os dois países, alguns dos quais, encontram-se encalhados há cerca de dez anos, por motivos não revelados. Manifestou um certo desagrado com o ritmo de alguns projectos já rubricados, com destaque para os sectores da energia e indústria, que ainda não saíram do papel. Dos acordos já rubricados constam projectos comuns, tais como, a instalação de uma indústria de ferro e aço, na cidade da Matola, que segundo as intenções, usaria matéria prima sul-africana e o gás natural de Pande, para o seu funcionamento. Por seu turno, o estadista moçambicano, Armando Guebuza, apontou os recursos naturais, cujas potencialidades nacionais são consideradas elevadas, como a solução para libertar o país da dependência externa. RAS LIDERA A CARTEIRA DE INVESTIMENTOS EM MOÇAMBIQUE A África do Sul lidera a lista dos investidores estrangeiros em Moçambique. Nos primeiros seis meses do corrente ano, o país vizinho investiu cerca de USD65 milhões. Apesar de ser o maior parceiro económico de Moçambique, a balança comercial é largamente favorável àquele país vizinho. Segundo estatísticas oficiais sul-africanas, Moçambique importou bens no valor de USD1,60 mil milhões da África do Sul no ano passado, enquanto o valor total das importações sul-africanas oriundas de Moçambique atingiu no mesmo período USD360 milhões. Dos grandes investimentos sul-africanos em Moçambique, o maior destaque vai para o projecto de gás natural de Inhambane, explorado pela Sasol e do sector açucareiro através da Tongaat-Hulett e da Illovo.
|