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Pelo menos 5% das novas infecções de HIV no país ocorrem entre homens que praticam sexo com homens. Contudo, o governo carece de um plano específico de prevenção para eles. O estudo descreve a realidade de um grupo marginalizado que vive vulnerabilidades múltiplas: igno-rância dos riscos, difícil aceso aos serviços de saúde e ausência de informação sobre HIV adequada para gays. A pesquisa desmistifica o mito de que os gays são um grupo sexualmente isolado da população em geral, já que parte dos homens que fazem sexo com homens também tem relações com mulheres.
O estudo sobre Vulnerabilidade e Riscos de Infecção pelo HIV entre Homens que fazem Sexo com Homens na Cidade de Maputo foi realizado pela Associação de Defesa das Minorias Sexuais (Lambda), em parceria com outras instituições de pesquisa. ”Está em jogo a vida de parte da população. Não podemos ficar de braços cruzados”, disse Danilo da Silva, coordenador da Lambda, que tem 140 membros na capital e 50 nas províncias.
Mitos e ignorância Apresentado esta terça-feira, o estudo ressalta um cenário preocupante que se resume na falta de informação, na discriminação e na ineficiência dos actuais programas de prevenção e cuidados para atingir este grupo. Assusta a falta de informação sobre os riscos de infecção pelo HIV através do sexo anal (pénis-ânus) e sexo oral (pénis-boca ou ânus-boca). O sexo anal, seja homossexual ou heterossexual, é particularmente perigoso porque resulta em microlesões dos tecidos que abrem a porta ao vírus. “As pessoas não sabem disso, há um longo trabalho pela frente,” comentou Marcos Benedetti, assessor da Pathfinder International.
Outro problema é a percepção entre os gays de que é mais fácil contrair o HIV de uma mulher que de um homem, e que o contacto com o sangue traz mais riscos de infecção que o esperma, o que é errado. Nenhum associou a presença de infecções transmissíveis sexualmente a um maior risco de contrair HIV.
Hostilidade Os entrevistados sabem da importância do preservativo e não têm dificuldades em obtê-los, mas, tal como a população heterossexual, demonstraram um uso inconsistente. Há um desconhecimento generalizado sobre a importância do uso de lubrificantes a base de água, o único indicado para reduzir as probabilidades de rompimento do preservativo durante o sexo anal. Por ignorância, os entrevistados usam outros tipos de lubrificantes, incluindo, num caso, o licor Amarula. “Seria cómico se não fosse trágico,” disse Benedetti. Quando os gays precisam de cuidados médicos, os serviços públicos de saúde respondem com hostilidade e discriminação. “É difícil chegar no posto de saúde para tratar de algum problema no ânus. São recebidos com desrespeito, chegam a ser negados o atendimento ou mesmo serem expulsos do centro”, explicou Benedetti.
Não vivem isolados Existe uma ligação sexual entre os gays e a população em geral, numa sobreposição das redes de trocas sexuais dos dois grupos. Há muitos homens que se envolvem sexualmente com homens e com mulheres, sejam elas esposas, namoradas, prostitutas ou parceiras ocasionais. É uma forma de corresponder as expectativas sociais dos padrões masculinos vigentes, disse o estudo. Dos 45 entrevis-tados, 16 mantêm relações regulares com mulheres.
O contexto social pressiona estes homens a casarem, terem filhos e ocultarem suas práticas de sexo com outros homens. Algumas destas mulheres sabem disso, outras não. Por isso importa que este grupo de homens saiba se proteger do HIV, num contexto de epidemia generalizada com uma taxa de seroprevalência de 11.5%, segundo dados divulgados semana passada.
Em África, a ignorância combinada com a clandestinidade das relações homossexuais, contribui para que este grupo apresente as taxas de infecção com HIV bem mais altas que a população geral. Na Zâmbia, a seroprevalência entre os gays é 33% enquanto na população geral é 14 %. No Zanzibar, 12% contra menos de 1%. No Mali e Gana, a prevalência do HIV na população no geral é abaixo de 5%, mas 37% e 25% entre os gays , respectivamente.
Caminho a frente “Este estudo trouxe à luz o que já especulávamos, que a falta de conhecimentos sobre HIV neste grupo deriva da sua exclusão sistemática dos programas de prevenção. Traçamos o perfil e os riscos, agora podemos traçar políticas e programas,” disse da Silva. Não será fácil. Parece existir uma resistência em desenvolver programas para as minorias sexuais no pais. “É uma discussão difícil de levar no meio das instituições do governo,” comentou Benedetti. “O texto está pronto desde Novembro de 2009 aguardando a resposta do Ministério da Saúde, finalmente ficaram fora. Enviamos meia dúzia de convites ao Conselho Nacional de Combate ao SIDA, mas ninguém veio.”
Da Silva aponta que “nos países anglófonos da SADC há programas para gays, mesmo tímidos. Moçambique será o ultimo dos países da região a implementar este tipo de programas…quem sabe por quê.” Em resposta à pesquisa, Population Services International anunciou a formação de educadores de pares gays na Beira e Nampula em Agosto, e de provedores de saúde com o objectivo de estabelecer serviços médicos gay-friendly, ou seja, não hostil. O estudo foi descrito como ”pioneiro” por Dvora Joseph, directora de HIV no PSI. “É importante começar a produzir um conhecimento escrito e científico sobre homens que fazem sexo com homens, um grupo vulnerável que tem pouco apoio no país. Queremos divulgar o estudo para quebrar o silêncio em torno deste tema”, disse Joseph.
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